Texto 1 – Capoeira e Educação: Processo e Produto
Vinícius Heine
Quando estamos trabalhando com a Capoeira seja uma escola, um clube, uma academia, um projeto somos percebidos pelas pessoas que estão ao nosso redor e com as quais nos relacionamos. Somos percebidos pelos nossos alunos, pelos nossos colegas de trabalho, sejam professores ou demais funcionários das diversas áreas… somos percebidos pelos nossos superiores, os coordenadores, e diretores da empresa.
Somos percebidos pelas nossas atitudes, pelas nossas palavras, pela nossa postura, pelas nossas vestimentas e somos percebidos pelo que contamos para essas pessoas: o que fazemos, o que estudamos, o que empreendemos, de onde viemos, para onde vamos.
Assim, algumas dessas percepções das pessoas em relação a nós mesmos, podemos controlar, outras não. A percepção das pessoas passa pela lente dos óculos que elas usam. Ou seja, uma pessoa que usa um óculos que tem graus de preconceitos, sempre nos verá com o viés do preconceito. Se usar os óculos da vaidade, nos verá sob esse prisma.
No entanto, existem os aspectos que estão sob o nosso controle e poder. Ou seja, o que falamos e como agimos depende exclusivamente de nós. Assim, é sobre esse aspecto que devemos nos concentrar. A educação, a atenção para com as pessoas, a gentileza, a cordialidade são aspectos indispensáveis para causar uma boa impressão no trabalho e na vida.
Mas, é preciso ir além disso. Uma empresa, seja lá qual for sua natureza, precisa aprsentar resultados. Precisa realizar projetos, que são produtos finais que geram valor para os seus usuários. Quando o pai matricula o seu filho numa escola, ele espera ver resultados na sua educação: que a criança seja alfabetizada, que aprenda conteúdos relevantes, que seja estimulada, que tire boas notas, que se relacione bem com os demais colegas, conseguindo socializar-se, que respeite os outros, que desperte o seu potencial criativo, etc, etc.
Assim, na Capoeira ocorre o mesmo. Os pais esperam que os filhos aprendam a executar os movimentos, a tocar os instrumentos, a cantar as músicas, que conheça a história da Capoeira, tudo isso dentro dos seus limites biológicos, psicológicos e cognitivos. Para isso, o professor deverá desenvolver estratégias adequadas às características dessas crianças, percebendo o potencial e as dificuldades que cada uma delas apresenta.
Além de moviementos, instrumentos, músicas e elementos históricos, os pais também esperam que os seus filhos desenvolvam habilidades pessoais tais como respsitar as pessoas, aprender a trabalhar em grupo, ter atitudes adequadas e ter controle e equilibrio emocional.
Ao final de cada período, que pode ser um semestre ou um ano, o professor de Capoeira realiza um evento de apresentação dos resultados finais do seu trabalho. Normalmente em forma de Batizado ou Festival. Nesse evento estarão reunidos os pais, os amigos e convidados, os demais profesores da escola, os coordenadores e possivelmente os diretores. Esse é um evento de extrema relevância para o reconhecimento, a valorização e a comtinuidade do trabalho que está sendo desenvolvido pelo professor. Afinal, é ali que muitos pais verão o desempenho do filho pela primeira vez, já que muitos pais, hoje em dia, vivem muito atribulados e não têm condições de acompanhar o processo de educação dos seus filhos. Por isso, têm como única possibilidade assistir o resultado final do trabalho.
Assim, trata-se de um momento especial, onde tudo deve ser caprichado para causar uma boa percepção e impressão nas pessoas. Se tudo sai a contento: cumprimento dos horários, participação satisfatória das crianças, integração e respeito entre todos, alegria e organização, o trabalho será aplaudido. Crédito para o Professor da Capoeira que conseguiu mostrar um bom resultado, um bom produto. A criança sai satisfeita, os pais, os professores, coordenadores e diretores da escola também. O professor de Capoeira sente-se reconhecido e motivado para a continuidade e o crescimento do seu trabalho. O Processo foi cumprido e o produto foi apresentado: a Capoeira reconhecida como instrumento de Educação.

Texto 2 – A Formação do Profissional da Capoeira
Vinicius Heine
“Capoeira… ânsia de escravo em busca de liberdade… seu princípio não tem método e seu fim é inconcebível ao mais sábio dos Mestres”… as palavras de Vicente ferreira Pastinha nunca foram tão verdadeiras e atuais. Pode-se aprender Capoeira a partir de muitos métodos e estratégias e normalmente este método é peculiar a cada Mestre e a cada educador em função das suas vivências, crenças, princípios e valores. A Capoeira que cada aluno vê quando começa a aprender está muito condicionada ao olhar do seu Mestre. Com o tempo e a experiência, o aluno deixa de ser iniciante e desenvolve a sua própria visão e opinião sobre a capoeira. Posteriormente, dentre os muitos que começaram na condição de aluno, alguns despertam o interesse pelo exercício da docência, ou seja, passam também a ensinar Capoeira. Alguns passam a receber remuneração para dar aulas. Tornam-se então profissionais. Alguns em tempo parcial, já que concomitantemente exercem outra profissão ou ofício. Outros passam a se dedicar exclusivamente à Capoeira e fazem dela a sua ocupação principal.
Ainda não existe uma Faculdade de Capoeira. Assim, a formação do profissional da Capoeira se dá de diversas formas. Sempre se começa como aluno, seja na academia, na escola, no clube, na universidade, no projeto social… Em princípio recebe orientações exclusivas do seu Mestre e dos demais Mestres e professores do seu grupo. Atualmente, muitas fontes estão disponíveis e podem ampliar e completar o seu aprendizado. Assim, passa ler livros, assistir a vídeos e documentários e começa a freqüentar outras academias, outras rodas, eventos e congressos, onde tem a oportunidade de conhecer outros Mestres de capoeira e um pouco mais da sua filosofia de trabalho.
Às vezes o que conhece fora da sua academia está de acordo com o que o seu Mestre lhe ensinou. Outras vezes, existe uma dissonância entre o que aprendeu “em casa” e o que escutou “fora de casa”. Assim o capoeirista vai formando a sua própria visão a respeito das múltiplas questões do mundo da Capoeira.
Quando passa a dar aulas começa também a refletir sobre questões relacionadas ao processo de ensino e aprendizagem da Capoeira. O que ensinar? Como ensinar? Através de que estratégias? Utilizando quais materiais? No começo ensina com base no que aprendeu com o seu Mestre, aplicando as mesmas fórmulas que funcionaram com ele. Aos poucos começa a criar suas próprias adaptações ao seu método de ensino. Desenvolve a sua maneira particular de ensinar. Percebe que alguns alunos necessitam de atenção especial, que os alunos têm ritmos de aprendizagem diferenciados. Percebe também que a Capoeira ensina muito mais do que simplesmente movimento: ensina lições que podem ser válidas para toda a vida.
Assim, o professor começa a despertar para o educador que mora dentro de si. No começo, ensinar capoeira é ensinar movimentos de ataques e defesa, habilidades, destrezas, movimentos acrobáticas, toques de berimbau, de atabaque, pandeiro, reco-reco, agogô, a cantar músicas, quadras, ladainhas, corridos e chulas, a compor e dinamizar uma roda. Mas com o tempo, o educador começa e aparecer mais e o professor começa a perceber o valor da postura, da palavra, da atitude, do exemplo frente a seus alunos e à sociedade em geral… começa a perceber a grande responsabilidade que tem nas mãos e que precisa assumir para si mesmo. Responsabilidade grande, pois está em suas mãos conduzir a Capoeira por um determinado caminho. E este caminho pode ser suave e edificante ou pode ser tortuoso e doloroso.
Passa o tempo e o educador sente vontade de se renovar, de aprender mais, de estudar a fim de manter viva em si a chama da aprendizagem. Afinal, aquele que ensina deve ser um eterno aprendiz. Tal qual a natureza que se renova a cada ano através dos ciclos das quatro estações, também o educador sente dentro de si a vontade de crescer e de se renovar, de estudar, de pesquisar, de estabelecer novas metas e novos projetos.
Sente que é preciso expandir seus conhecimentos e horizontes, exercitar a reflexão e a inteligência, pensar para além dos próprios limites e das fronteiras atuais. O mundo atual é um mundo de mudanças… a cada dia nos surpreendemos com novas descobertas e novos acontecimentos.
Percebe que é preciso atualizar-se, estar preparado para as oportunidades. Oportunidades que se abrem para aqueles que se preparam. Que estão abertos e dispostos a enfrentar desafios.
Se você é uma dessas pessoas, bem vindo. Aqui você encontrará parceiros para essa jornada em direção ao crescimento e ao desenvolvimento das suas habilidades pessoais e profissionais e acima de tudo da sua inteligência. Inteligência entendida como a capacidade de pensar, de refletir, de questionar… pois a aprendizagem não começa pelas respostas que recebemos e sim pelas perguntas que nos fazemos e que fazemos ao mundo que nos rodeia.